Dropo Blog - Impactos da Internet do mercado de softwares

Impactos da Internet do mercado de softwares

Como desenvolvedor de softwares, pude observar o comportamento do mercado de software em um momento singular: o surgimento da Internet. Vale frisar que essa tal Internet é em verdade uma “estrada” que liga todos a todos, e onde transitam coisas digitais. Vale frisar ainda que estamos falando de um mercado onde essencialmente temos que entregar softwares a nossos clientes, e esses softwares são sempre “digitais”. Guardemos esses trechos!

Antes da Internet, tínhamos efetivamente dois modelos de negócios: os softwares desenvolvidos sob encomenda, oferecidos geralmente como serviço pelas fábricas de software e desenvolvedores autônomos, e os softwares “de prateleira”, oferecidos como produto, como se você estivesse escolhendo algo em uma prateleira de mercado.

Claro, como ainda não tínhamos Internet, esses softwares eram geralmente instalados nos computadores das empresas, em redes locais. Mas, voltemos …

Os softwares desenvolvidos sob encomenda resolviam os problemas do demandante “como uma luva”, mas levavam certo tempo para estar disponíveis, pois havia todo o ciclo de engenharia de software ser percorrido. Por ser um artesanato feito por profissionais qualificados, esses softwares tinham um custo de investimento alto.

Já os softwares de “prateleira” estavam disponíveis em revendas, empresas de tecnologia, etc, expostos em caixinhas, lembrando realmente produtos de prateleira em um super-mercado. O investimento da aquisição era relativamente menor que os de encomenda, e a disponibilidade, praticamente imediata. A grande ressalva aqui fica por conta da personalização prejudicada, já que a empresa tinha que procurar pelo software que tinha a aderência “menos pior” ao seu modo de trabalho. “Menos pior” aqui não é um termo exagerado, ponto!

E se fez a Internet …

Estamos vivendo uma revolução digital em todos os aspectos das nossas vidas (pessoas físicas e jurídicas), porque duas coisas fantásticas aconteceram ao mesmo tempo, como uma “tempestade perfeita”:

  • Muitas coisas que produzimos ou consumimos hoje (trabalhos, figuras, projetos, filmes, etc) são artefatos digitais ou têm sua versão digital; mesmo coisas que precisam ser físicas (peças de carros ou até sanduíches) podem ter sua versão digital feita em um software de CAD, sendo impressas em impressoras 3D. Vale lembrar que até lojas, vitrines, expositores, que eram locais físicos, na era pós-Internet são locais digitais;
  • A Internet, como colocado, é na verdade uma grande “estrada de artefatos digitais” e que liga todos a todos (definição simplista, mas perfeita para o nosso raciocínio);

Um passo atrás: toda a relação de consumo é baseada na troca de “coisas”. Te dou X moedas por isso, Y por aquilo. Essa troca era essencialmente o pagamento via sistema financeiro para o fornecedor, e o transporte físico da “coisa” comprada para seu comprador.

Pois bem, se hoje as lojas, vitrines e mercados podem ser digitais, se pagamos por meios digitais, se várias “coisas” que compramos são digitais, e por fim, e mais importante, se hoje temos as “estradas virtuais” que ligam todos a todos, então acabamos alterando drasticamente um grande componente dessa cadeia: a logística.

Hoje entregamos “coisas” pela Internet, recebemos “coisas” pela Internet. O único requisito é que sejam coisas “digitais”.

Mas Internet é só nova logística?

Em qualquer um dos dois modelos existentes (software sob demanda ou prateleira), o impacto da Internet no mercado de softwares foi “matador”. Isso porque softwares são produtos digitais por natureza e podem ser apresentados e vendidos/entregues pela Internet.

Os produtores de software perceberam essa nova logística, e passaram a criar seus sites e suas lojas virtuais, com links para download de seus softwares e suas atualizações.
Até aqui, sem surpresa!

Mas também tivemos um impacto silencioso no mercado de software, que até hoje foi atacado apropriadamente por poucos players: a Internet para esse mercado não é só uma nova “estrada”. Ela trouxe para os seus zilhões de usuários novos dispositivos de todos os tamanhos, trouxe a tal disponibilidade 24/7/365, trouxe conceitos como usabilidade e experiência de uso, trouxe conceitos de on-line e off-line, e questões de tempo real, de internacionalização. Uau, tantas palavras difíceis.

Os consumidores atuais são “conectados” e são bombardeados por emails, ou procuram por novidades a todo instante. Eles mudam seus comportamentos e suas preferências muito rapidamente nesse pós-Internet, pois é natural encontrar outro melhor, mais adequado, mais conveniente, mesmo se tentarmos nos apegar em recursos que geram fidelidade.

A “servicização” dos produtos e o SaaS …

Para complicar esse cenário, tivemos ainda um outro movimento comportamental moderno: a tendência de transformar várias relações de compra de produtos em contratação de serviços.

Percebemos claramente esse movimento global, com velocidades de adoção maiores ou menores, dependendo do país e do mercado. Hoje praticamente podemos viver só de serviços, com contas mensais pequenas (comparadas à aquisição) e previsíveis, sem depreciação, sem indisponibilidade. Podemos contratar carros, podemos contratar computadores e impressoras, podemos alugar roupas. As donas-de-casa podem alugar até “maridos” para consertar vazamentos ou trocar um chuveiro.

O mercado de software, principalmente a linha sob demanda, geralmente cobra um valor de desenvolvimento fixo e um valor mensal, chamado de manutenção, suporte, entre outros nomes. Essa cobrança era justificada pelo relacionamento umbilical criado entre o produtor e o demandador do software, por conta de ajustes e manutenções pós-entrega.

Mas o movimento de “servicização” no mercado de softwares foi inaugurado pelos fornecedores de anti-vírus. Eles eram vendidos em prateleira, mas os consumidores precisavam de atualizações quase diárias das definições de vírus. Os fornecedores viram uma oportunidade, refizeram suas planilhas nesse novo modelo de negócios, e perceberam que ter uma receita recorrente era mais vantajoso que ter uma única cobrança na venda. Desta forma passaram a alugar um produto que antes era vendido e o comunicaram como um “serviço de segurança permanente para o seu computador”. E a coisa se transformou no estilo “pay per use”. Criaram um acrônimo bonito, hoje usado mundialmente, chamado SaaS (software as a service).

E para complicar ainda mais … as nuvens

Como não podia deixar de ser, tivemos mais um movimento, desta vez no mercado de TI dentro das empresas, e que afetou diretamente os softwares: a computação em nuvem.

A “dor” da vez foi que a TI mostrou inquestionavelmente entregar produtividade para as empresas, mas também mostrou que, quanto mais TI você tiver, mais terá que ser especialista em TI, o que acabou gerando um paradoxo do tipo: “se você quer simplificar sua burocracia para aumentar sua produtividade, precisa complicar seu RH com analistas, desenvolvedores, designers, precisa complicar seu espaço físico com salas refrigeradas de servidores, no-breaks, e precisa fazer o tal backup dos dados”. Eu cheguei a entrar em uma padaria certa vez e perceber que ela tinha um departamento de tecnologia. Padaria não tem que ser especialista em fazer pão? Sem comentários!

Aqui entra novamente a “super estrada Internet”. Para o espanto dos desavisados, Internet nada mais é que várias redes locais interligadas, formando redes de redes, com algumas características e recursos técnicos que as tornam todas alcançáveis entre si.

Em palavras simplistas, houve algo do tipo: “se as empresas tem servidores em suas redes locais, mas todas as redes locais estão interligadas, então os servidores podem estar em qualquer uma dessas redes”. E criou-se a computação em nuvem. Alguns players criaram enormes data centers, locais onde se empilham zilhões de servidores (físicos ou virtuais) que podem ser alugados para qualquer empresa, pela Internet, como serviço. Com isso, as empresas continuavam tendo todos os benefícios da TI, mas com os efeitos colaterais drasticamente diminuídos.

Por fim, o tal “do it yourself” …

Um outro comportamento amplificado pela Internet foi a da preferência de independência pelos consumidores. Eles podem (e gostam) de pesquisar, consultar sites de concorrentes e fazer comparações, testar produtos ou conhecer a versão grátis, no seu tempo, a seu modo.

Os fornecedores que não oferecem essas possibilidades aos clientes certamente estão com suas vendas despencando, se é que ainda temos algum deles operando.

Consolidando o impacto da Internet no mercado de software …

Discutimos vários impactos diretos e indiretos da Internet no mercado de softwares. Pois bem, vamos enumerá-los:

  • A Internet mudou a forma da logística de entrega de softwares;
  • A Internet mudou o comportamento do consumidor, que se fideliza menos ou com outros critérios;
  • Aspectos de design de produto, como dispositivos de todos os tamanhos, disponibilidade 24/7/365, experiência de uso, on-line e off-line, tempo real, internacionalização;
  • Os consumidores preferem modelos de negócios baseados em serviços (“eu pago pouco, e uso enquanto estiver pagando”);
  • Os consumidores estão indo para as nuvens;
  • Os consumidores querem testar, contratar, cancelar, no seu tempo, do seu jeito;

Ao observar essa lista provavelmente não exaustiva, entendemos o tamanho do problema enfrentado pelos produtores de software que viveram o surgimento da Internet. Essa lista nos diz que os softwares têm que estar na nuvem, oferecidos como SaaS, disponíveis 24/7/365, com experiências de uso adequada, preferencialmente na língua e moeda adequadas, sem fidelidade e que o próprio consumidor possa contratar, testar, cancelar.

Os produtores de software entenderam inicialmente que a Internet era só um novo meio de entrega e se movimentaram rapidamente, mas somente nessa direção. Provavelmente alguns mais “avisados” perceberam que existia algo a mais a ser feito, mas temos aí uma característica desse produto que se torna um problema: software é nada mais que uma tonelada de linhas de código feitas artesanalmente e por muitas horas-homem, sobre determinadas camadas previamente escolhidas de tecnologia (sistema operacional, linguagens, bancos de dados, frameworks e bibliotecas diversas, incluindo a última, a linguagem de desenvolvimento, que renderiza interfaces para os usuários). Um software portanto não pode ser adaptado, remodelado ou recriado em um curto prazo.

É comum encontrarmos ainda hoje, em tempos de web 3.0, 4.0, softwares web que têm “carinha” de desktop. É comum ainda encontrarmos fornecedores oferecendo softwares instaláveis em estações e servidores. Claro, temos a máxima que “para qualquer produto há um consumidor”, mas temos uma outra que diz que “o que está ruim pode piorar” …

Não é difícil classificar quase todos os softwares oferecidos atualmente em duas categorias: aqueles pré-Internet, que sofreram as maquiagens possíveis para se adaptar a ao menos alguns itens dessa lista, e aqueles já nascidos pós-Internet, que tem essas características desde o seu dia 0, mas geralmente ainda sem a robustez e abrangência de softwares já maduros.

Esses impactos criam um movimento sem volta, e de duas, uma: ou os produtores de software estão com o movimento ou estão fora dele.


One Comments

Deixe uma resposta